ENTENDA DE CALÇADOS: PERGUNTE AO ESPECIALISTA

Pergunta de Maria Antônia Saldanha do Paraná

Se calçados de couro ecológico são mais baratos, porque devo comprar calçados de couro legítimo?

O chamado couro legítimo é o que se usa historicamente na fabricação de calçados, podendo ser de origem bovina, ovina, caprina, suína, de peixes, répteis, aves, etc.. O que todos têm em comum é que resultam do abate de animais destinados à alimentação humana. Não são usados couros que não tenham certificado de origem, ou que sejam frutos de exploração indevida, como caça. Esses couros podem ser curtidos e acabados com diversos elementos, com visual liso ou texturizado, sendo aplicáveis na fabricação de calçados, roupas, estofamento, etc.

Calçados de couro são mais confortáveis, por serem mais compatíveis e adaptáveis aos pés, por proporcionarem maior conforto térmico, absorverem a umidade dos pés, terem mais resistência estrutural e melhor aparência. Finalmente, calçados de couro legítimo estão inseridos numa cadeia de sustentabilidade, porque aproveitam peles que seriam descartadas e entrariam em processo de degradação no meio ambiente. Usadas nos sapatos evitam que outros materiais sejam mobilizados para servirem de matéria prima na fabricação de sapatos, bolsas e muitíssimo outros acessórios de moda.

O que o mercado chama erroneamente de couro ecológico, na verdade é um material sintético laminado, produzido a partir de derivados do petróleo, usando materiais de fontes não renováveis e de difícil decomposição na natureza. Existe uma lei no Brasil que proíbe o uso do termo couro ecológico para definir laminados sintéticos, em função de ser considerada prática que tem como finalidade confundir os consumidores.

Pergunta de Eugenia Santos Dister de Brasília

Viajei para o exterior e comprei calçados muito bons e quando fui ver o fabricante para repetir a boa compra, descobri que foram feitos no Brasil. Qual é o conceito do calçado brasileiro no exterior?

O sapato brasileiro é muito bem conceituado em nível internacional, assim como os profissionais calçadistas brasileiros que são requisitados no mundo inteiro, para auxiliar na qualificação dos calçados daqueles países.

O Brasil produz calçados há muitos anos e tem uma das cadeias produtivas (cluster) mais organizadas e completas do mundo. Muitas marcas mundiais têm setores de engenharia no país e algumas marcas nacionais são reconhecidas internacionalmente.

Aqui temos estrutura e tecnologia igual ou melhor do que os maiores fabricantes de calçados do mundo, além de muitos conhecimentos que agregam valor aos nossos calçados. Por vezes, os consumidores se perguntam porque calçados aparentemente semelhantes são vendidos por preços diferentes, o que se explica, na maioria das oportunidades, por valores agregados em termos de conforto, durabilidade e estética.

Por que não há padrão de numeração?
Comprei calçados de várias marcas e apesar de calçar 36, já calcei de 35 a 37. Por que não há padrão de numeração?

No Brasil é adotado o mesmo sistema de numeração europeu, com base no ponto francês, reconhecido neste mercado e registrado em norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
Portanto, o correto é afirmar que há padrão de numeração em calçados. Mas, em função de adaptação aos produtos disponibilidades e de acordo com o público a que se destinam, as indústrias vem realizando ajustes nesta numeração. Algumas empresas não adotam esse padrão por mero desconhecimento técnico deste recurso.
A norma ABNT dá uma margem de tolerância de alguns milímetros tanto em relação ao comprimento, como em volume dos calçados, no que as marcas eventualmente se diferenciam. Cabe ressaltar que essa norma ABNT não é compulsória, ou seja, não há obrigação de que os calçados sejam fabricados conforme este padrão. Trata-se de uma convenção para que o mercado tenha parâmetros para construir calçados confortáveis.

O que você acha da produção artesanal? Qual a diferença entre ela e a industrial?
Vejo que alguns calçados são apresentados como artesanais, mas vejo que eles são produzidos em indústrias. Está correto que sejam chamados de artesanais?

A produção artesanal ocorre quando pelo menos 60% do tempo necessário à fabricação seja realizado à mão, sem uso de tecnologia máquina. Na produção de calçados alguns processos como costuras são realizadas com uso de máquinas, porém diversos processos como corte, preparações para costura, preparações em palmilhas e solados, montagem e acabamento podem ser realizados à mão, ou eventualmente algum à máquina. Quando a manufatura corresponde a 60% ou mais do tempo padrão da fabricação, o produto pode ser apresentado como artesanal.

Fale um pouco mais de elementos ou questões que conferem conforto aos calçados

Para entender se um calçado é confortável foi necessário definir parâmetros, porque para saber se há conforto é preciso que se compare o resultado de uso deste sapato, ao que está registrado no grupo de normas do conforto de calçados. Ainda assim estamos sujeitos as condições variáveis, pois os níveis de percepção de conforto podem variar entre as pessoas, visto que as formas e a intensidade de sentir é diferente entre todos os indivíduos.
As normas indicam quanto os calçados devem pesar (massa), qual capacidade de absorção de impacto, a variação de temperatura que os pés podem sofrer durante o uso do calçado, a sensação de conforto pela não presença de contatos demasiados e que eventualmente causem sintomas de dor, as dimensões dos calçados, além da estabilidade e segurança dos pés durante o uso. Estes testes podem ser feitos em laboratório e no Brasil temos competência instalada para essa apuração.
Ainda assim o índice de subjetividade é enorme, podendo trazer variações entre pessoas diferentes para o mesmo calçado, inclusive para algum aprovado como confortável em testes e considerados conforme as normas ABNT pode dar sensação de desconforto aos pés de alguns usuários.
Em outro momento poderemos abordar cada norma, para ajudar a conhecer e entender melhor os parâmetros e como eles podem vir a contribuir na prática com o conforto dos calçados.

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Perguntas ao Especialista

Pergunta de Marli Oliveira, do Rio de Janeiro:

Pensava que conhecia a linguagem dos sapatos, mas recentemente li uma matéria que falava de cabedal. Que parte é essa do sapato?

Cara Marli, um calçado, em média, é composto por 20 a 25 partes ou componentes, divididos em cabedal (construção superior) e solado / palmilha e salto (construção inferior). A construção superior e a inferior são compostas por uma série de partes que variam em número e características em função do uso a que se destina o calçado e do seu design. Portanto, cabedal Marli, é simplesmente a parte superior do sapato.

Pergunta de Suzana Stoner, de São Paulo:

Olha para mim conforto é tudo! Não consigo ficar com sapato que machuca… por isso gostaria de saber o que dá conforto a um sapato para saber escolher e não me arrepender depois.

Cara Suzana, você fez a pergunta mais complexa sobre calçados. Uma resposta completa é assunto para vários posts… mas vou começar com algumas questões que talvez não sejam as mais importantes, mas podem ser um bom começo.

Conforto em calçados é bem estar, o que significa total ausência de qualquer sintoma de dor. Calçados existem para proteger e prevenir lesões dos pés e não tem o menor sentido produzirem algum maltrato. Portanto, você está certa. Obrigatoriamente, têm que ser confortáveis, o que exige uma engenharia repleta de variáveis.

Para passar esse conhecimento vou adotar como metodologia o estudo de cada uma das partes que compõem um calçado e sua respectiva função e farei isso com muito entusiasmo porque hoje beleza e conforto caminham juntos na moda. Não existe mais mulher disposta a sofrer em nome da elegância.

A construção superior, Suzana, chamada de cabedal, protege o dorso dos pés e pode ser de couro, tecido, material sintético, sendo que o couro é, de todos, o material mais nobre porque transpira, tem elasticidade, beleza e durabilidade. Já a construção inferior é a parte que dá a sustentação, conforto e proteção à planta dos pés em relação às irregularidades do solo.

Só materiais macios, palmilhas flexíveis e cabedais pouco rígidos não garantem conforto. O que realmente importa é haver espaço adequado para os pés, estabilidade, leveza, flexibilidade, boa absorção de impactos e um design que, além de cuidar da estética, respeite as boas técnicas obedecendo critérios anatômicos e fisiológicos.

Há calçados de diversas categorias como mocassins, sapatilhas, sandálias, scapins, oxfords, botas, tênis e dentro delas há subdivisões em função do bico que pode ser fino, redondo ou quadrado e do calcanhar que pode ser aberto ou fechado. Como cada pé tem suas características, há modelos mais adequados para cada mulher e dentro de cada modelo precisam ser considerados detalhes estéticos mais ou menos favoráveis. Toda mulher sabe bem o que lhe convém, mas se recebermos foto e medidas podemos orientar na escolha. Nada é totalmente científico porque existe o hábito a influenciar na escolha. Não podemos tratar os pés de forma isolada porque se conectam com toda estrutura do corpo e têm forte relação com o psicológico. Há mulheres com a mesma anatomia que se sentem confortáveis com bico fino, já outras só calçam bico redondo, há as que se sentem ótimas com salto 13 e outras que não passam do 5.

Cara Suzana, sei que ainda não lhe ajudei muito, mas por hoje fico por aqui porque meu espaço acabou. Siga nosso blog porque voltarei várias vezes ao assunto e você acabará por saber tudo que precisa.

ENTENDA DE CALÇADOS: PERGUNTE AO ESPECIALISTA

Cara leitora, como mulher você certamente é apaixonada por sapatos e se encanta com originalidade, cores, formas e adereços. Mas dificilmente imagina o que há por trás de uma peça de qualidade em termos de criatividade, pesquisa, desenvolvimento, técnica, habilidade manual, além de uma complexa engenharia de produto.

Modelos de estéticas diferentes exigem técnicas próprias para se ajustarem bem aos pés, não apresentarem deformações, terem durabilidade, oferecerem estabilidade e muito, muito conforto.

Até um sapato nascer, um longo caminho é percorrido. O primeiro desafio é sair em busca de referências para a escolha de um tema de coleção. O segundo é criar modelos inspirados no tema, respeitando as tendências e a identidade da grife. Nesse momento chega a engenharia para se juntar à arte e analisar, opinar e garantir ao que está sendo gestado as melhores virtudes exigidas de um bom sapato. Em seguida, os modelos criados vão para a seleção do conselho de moda onde a engenharia tem assento garantido. O papel da engenharia, a partir daí, só faz crescer. Participa ativamente da modelagem e da elaboração de protótipo e volta a se juntar às designers para aprovação, ajuste ou rejeição. Depois, com protótipo aprovado, toda a responsabilidade é sua, orientando, acompanhando e conferindo a qualidade da produção.

Cara leitora, a partir de agora, desejamos que você se torne uma especialista em sapatos para identificar com segurança a qualidade do que calça. Todas as semanas nosso diretor de engenharia de produto revelará os segredos de nossa grife e responderá todas as perguntas que forem encaminhadas para contato@chararial.com

Aproveite! Sacie sua curiosidade, tire todas suas dúvidas. Conheça enfim, tudo que constrói sua grande paixão.