PROBLEMA EM DOSE DUPLA

Sou dos que têm mais medo de inflação do que de assombração. E creio que esse pavor é compartilhado por todos que há 20 anos atrás tinham que administrar suas contas.

Inflação é fenômeno simples que expressa apenas um aumento no nível geral de preços, mas sem controle, pode transformar a vida de toda sociedade num inferno.

Imagem: reprodução da internet

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Dá para imaginar o que significa conviver com uma inflação de 2.500% ao ano e de 50% ao mês? Perder metade do salário em 30 dias? Receber dinheiro e sair correndo para fazer compras? Cara leitora, há 20 anos atrás a vida era assim e a memória disso deveria ter ficado guardada por algumas gerações impedindo que governantes irresponsáveis fizessem gestão de risco sem cuidado com fatores que poderão nos remeter a esse passado lamentável.

Depois de anos sucessivos com taxas menores que 5%, provavelmente teremos neste ano uma inflação na casa dos dois dígitos, mais do que o dobro da meta estabelecida no orçamento, e pior, num ambiente de recessão, o que define um quadro que os economistas classificam como trágico.

E por que a presença dessa dupla é tão ameaçadora? Hoje, metade do nosso Produto Interno Bruto, ou seja, metade de tudo que produzimos e vendemos no país, depende de crédito, o que não seria problema se estivéssemos num país com baixas taxas de juros onde empréstimos aplicados geram uma renda maior que os juros pagos.

Só que nossos juros são absurdos. Se você toma um empréstimo para investir em qualquer negócio o resultado que obtém dificilmente dá para pagar os juros na faixa de 30% ao ano para as boas empresas. Para pessoas físicas, melhor nem falar, porque são juros imorais, especialmente os cobrados pelos cartões de crédito. Aí pergunto: alguém conhece um negócio que dê resultado superior a 30% ao ano como resultado de um investimento? Acho difícil. E olha que essa taxa só está disponível para poucos porque o normal é algo na faixa dos 50% e aí, minha cara leitora, é impossível um negócio sobreviver pagando todos os tributos.

Mas voltemos à inflação: ela pode resultar de aumento nos custos, que precisam ser repassados aos preços para não gerar prejuízo. Ou ser consequência de aumento no consumo que dá chance a quem vende de praticar preços maiores na busca de melhores lucros. O remédio básico contra a inflação é aumento de juros para desestimular a tomada de empréstimos e assim reduzir a pressão de consumo e isso sempre funcionou bem porque metade das compras do país resultam de empréstimos. Com menos empréstimos, menor pressão de consumo e para atrair compradores, preços são reduzidos. Mas como agora reduzir o consumo se ele já está encolhendo por conta da recessão? Vamos fazê-lo encolher mais ainda? Vamos aumentar a recessão?

Imagem: reprodução da internet

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Caras leitoras, muitas loucuras foram praticadas. Para ganhar as eleições seguraram o custo da gasolina, do óleo diesel, da energia, enfim, de tudo que impacta os principais custos das empresas e ainda reduziram impostos sobre carros, geladeiras e muitos outros itens para manter o nível de vendas e retardar a recessão. Abriram também a porta do cofre para que todos tomassem empréstimos e continuassem comprando, tudo em prejuízo das contas do governo. Só que ao término das eleições esses mecanismos artificiais de contenção se esgotaram e nossa realidade teve que ser assumida fazendo com que os preços dos produtos básicos saíssem voando impactando os custos de todas as empresas e obrigando-as a aumentar preços, aumentos que só não foram maiores porque com recessão e vendas caindo, muitas absorveram parte de aumentos necessários, reduzindo lucros ou operando em prejuízo.

Empresas sem lucro ou em prejuízo demitem ou fecham as portas e o resultado é mais desemprego e mais recessão. Com Inflação alta, os juros pagos pelo próprio governo tiveram que aumentar para ele poder renovar seus empréstimos, pois o que interessa ao investidor é o juro real, aquele que ele realmente ganha depois de subtrair a inflação – e que no Brasil tem que ser muito atrativo para compensar o risco de emprestar para um país que as agências de análise de crédito apontam como um possível mal pagador.

Hoje, caras leitoras, nossos dirigentes estão perdidos. Com juros nas alturas e inflação sem dar sinal de parar de crescer, o governo não está conseguindo fechar suas contas, sua dívida está aumentando, os empresários e investidores estão recolhidos com medo, o governo não tem apoio, nem do congresso nem da população para encontrar e encaminhar soluções. O tempo passa rapidamente, as projeções pioram.

O que fazer? Não sei. Não sei eu, não sabe o governo, não sabem os políticos, não sabe toda a sociedade.

Eu, de minha parte, além de pregar as medidas que acho que deveriam ser tomadas, vou comprando aquilo que desejo enquanto posso, aproveitando as oportunidades de parcelamentos sem juros, já com medo de que tudo amanhã fique mais caro. Assim fazendo, pelo menos, estou ajudando a reduzir a recessão.

Até a próxima semana

J. Pose

CONHECIMENTOS SOBRE ECONOMIA: UM DIREITO CIDADÃO

Sem noções básicas de economia e política nenhum cidadão consegue entender o mundo em que vive, fazer projetos e tomar decisões. Mas, estranhamente, grande parte da população sabe pouco dessas questões porque os meios de comunicação dão espaço aos economistas ou replicam seus discursos em linguagem que transforma o simples em complexo, promovendo uma indesejável alienação.

Quem não é especialista só consegue absorver as manchetes dos noticiários, o que convenhamos é muito pouco. Por isso aceitei ocupar um espaço semanal no Blog da Chara para ao longo de muitas conversas provar para você, cara leitora, que não é difícil entender os grandes temas nacionais.

Imagem: reprodução da internet

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Minha proposta é traduzir frases e expressões complicadas para que todos tenham consciência de onde estão e para onde vão e formarem opinião sobre o presente e o futuro do país, pelo menos naquilo que impacta diretamente suas vidas. É meu desejo que todos tenham voz e vez na discussão dos grandes problemas da nação, presentes no seu cotidiano e com atuação sobre seu destino.

Poucos cidadãos têm consciência de que quase 40% de tudo que é produzido no país vai para as mãos do governo e por isso não manifestam uma revolta maior em relação à crise em que hoje estão mergulhados, que promete fechar empresas, desempregar e reduzir a qualidade de vida de todos, sem que se saiba de onde ela veio, porque veio, pelas mãos de quem veio e quando e de que forma será expulsa de nossas vidas. Apenas uma minoria tem noção de que paga não só imposto sobre sua renda, mas sobre tudo que consome, desde um quilo de feijão até um carro novo, além de IPTU, IPVA e muitos outros impostos que achacam de forma escamoteada e que nem imaginamos existir. Vivemos num país com uma das mais altas cargas tributárias do mundo e não temos, como contraprestação, serviços de qualidade nem investimentos para uma melhoraria de nossa qualidade de vida.

Cara leitora, você deve estar dando pulos na cadeira para tentar entender porque com tanto dinheiro confiscado da população não somos prósperos, não temos saúde e educação de qualidade e não investimos em pesquisa para pelo menos deixarmos de importar tecnologia – que é o que tem valor no mundo de hoje. Não deve também entender como ainda temos analfabetos e sustentamos famílias e mais famílias que não conseguem sair da miséria, não deve entender porque nossas estradas são ruins, porque não temos saneamento, porque não temos segurança (cada dia pior), porque estamos destruindo nossos recursos naturais e muitas coisas mais.

Temos muito o que conversar daqui para frente para discutir os inúmeros erros históricos cometidos por nossos governantes, erros que se misturam e entrelaçam, unem passado e presente e trazem desesperança.

Imagem: reprodução da internet

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Estamos, cara leitora, numa recessão violenta que nos impõe retrocesso e grande empobrecimento através de uma redução drástica de toda produção do país. Nosso dinheiro sumiu. O comércio não tem para quem vender, está demitindo e comprando menos. A indústria, em conseqüência, também está produzindo menos e demitindo. Com menos trabalho e menos salários, há ainda menos compras, menos impostos e tudo segue numa espiral perversa que não sabemos onde vai parar.

Vivenciamos até bem pouco tempo uma situação internacional favorável, mas gastamos muito e mal. Jogamos dinheiro fora, perdemos nossa grande oportunidade e agora o dinheiro sumiu.

Por um bom tempo fomos favorecidos por um crescimento meteórico da China que fez subir significativamente o preço do ferro, soja e milho, nossos principais produtos de exportação, – e ainda recebemos volumes significativos de recursos de investidores que vieram para cá porque os juros nos lugares mais seguros do mundo estavam baixos e nós apresentávamos sinais de prosperidade e segurança.

Só que o crescimento da China e os preços que nos favoreciam desabaram. Sem a maré favorável, os problemas de gestão do governo tornaram-se inadministráveis e só foram contidos com um grande esforço de represamento para que a crise não chegasse antes das eleições.

Isso nos custou muito caro. As eleições foram vencidas, mas logo logo, as comportas tiveram que ser abertas. Aí nos deparamos com uma crise inimaginável, com um governo sem nenhuma credibilidade, com contas deficitárias, com o fim de financiamentos a juros menores que os de mercado, com o fim da redução de impostos para setores privilegiados e de muitas outras medidas irresponsáveis que estouraram o caixa da nação. Investidores financeiros, assustados com o novo cenário, se dirigiram para mercados mais seguros, mesmo com os juros elevados que o governo passou a oferecer, apesar de explosivos para sua dívida. E para piorar mais, os Investidores de setores produtivos que planejavam ampliar seus negócios ou criar novos, diante da retração de nosso mercado, cancelaram ou postergaram o que estava programado.

Só que o grande problema não termina aí. Com todos produzindo menos, menos impostos passaram a ser arrecadados e as contas do governo se complicaram e continuam se complicando mais a cada dia. Desmoralizado pelas mentiras do período pré-eleitoral e sem nenhum apoio da sociedade e do congresso, o governo está imobilizado e permitindo que a crise se agrave perigosamente. Terminamos o ano sem realizar nenhum investimento e sem sequer pagar os juros de uma dívida que em pouco tempo se tornará impagável, a não ser que medidas duras sejam tomadas em curto prazo.

O que precisa ser feito não é feito. O governo precisa gastar menos e melhor. É preciso acabar com a politização de seus quadros para ter uma máquina pública barata, honesta e eficiente. Não há mais espaço para obter apoio do congresso com barganha de cargos que além de trazer incompetência alimenta uma corrupção desenfreada. O problema é que sem apoio da sociedade o governo que aí está não consegue desvencilhar-se de uma forma perniciosa de governar, que não é nova, mas que foi por ele altamente incrementada.

Imagem: reprodução da internet

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O futuro hoje é uma incógnita porque não se enxerga no horizonte nenhuma liderança com ideias novas e capacidade de mobilizar a população para grandes movimentos e mudanças.

A crise é grande e profunda, mas a solução não está conosco e não temos porque mudar nossas vidas. Eu, por exemplo, vou seguir no mesmo ritmo porque de alguma forma tudo terá que se resolver. Nossas potencialidades são grandes e não há força destruidora que a elas não se curve. Algo de positivo terá que acontecer.

Por hoje fico por aqui e conto com sua audiência na próxima semana quando vou tratar de outros ingredientes que compõem essa nossa tão indesejável crise. Interaja conosco. Comente, compartilhe, pergunte, divulgue para seus amigos.

J. Pose